Perspectivas 2010
(01/02/2010 - 15:31)

Perspectivas 2010
O ano de 2010 exige cautela! Dessa vez, ao contrário do editorial publicado na Carta da China de janeiro de 2009, quando fomos incisivos ao desaprovar pessimismo em relação ao crescimento da China, recomendamos reduzir as estimativas exageradamente otimistas, uma vez que acreditamos que o governo chinês não tem interesse em acelerar demasiadamente sua economia e recolocá-la no patamar de crescimento acima de 10% – como ocorrido entre os anos de 2002 e 2007.


O que isso significa? Ora, que, por um lado, Pequim utilizará todos os mecanismos e instrumentos disponíveis para continuar a incentivar a economia, uma vez que as exportações dependerão da melhora da demanda mundial para deixar de contribuir negativamente para o crescimento do PIB chinês, mas que, por outro, estará também disposto a frear o ritmo de aceleração para evitar riscos de superaquecimento, descontrole do índice inflacionário, formação de bolhas e outros males que o crescimento demasiadamente acelerado pode causar. É praticamente unânime entre os especialistas em China que um ritmo de expansão do PIB próximo ou acima de 10% em 2010, além de indesejável por parte do governo chinês, é extremamente arriscado e potencialmente insustentável. Dessa forma, mantemos a estimativa otimista de incremento do PIB de cerca de 9% no ano corrente e a expectativa de que a China se tornará a segunda maior economia mundial, ultrapassando o Japão¹.

 

Se no início de 2009 muitos analistas não acreditavam que a economia chinesa seria capaz de suportar os fortes impactos da crise internacional e registraria crescimento muito inferior ao apresentado nos anos anteriores, em 2010 muitos apontam para expansão do PIB superior a 10% e já iniciam debate acerca da sustentabilidade da política de incentivo ao crédito e de manutenção da taxa cambial. Alguns relatórios chegam a prever que a China enfrentará grave crise econômica ainda esse ano em razão do alto índice de endividamento adicionado em 2009, em especial, o incremento do volume de créditos não recuperáveis. No entanto, acreditamos que o desafio a ser enfrentado pelo governo da China será exatamente encontrar o equilíbrio ideal para manter a economia em ritmo acelerado e, ao mesmo tempo, evitar superdosagem. É interessante notar certa semelhança entre esse dilema e o enfrentado em meados de 2007, antes da crise, quando a China precisou aplicar medidas para frear a economia frente ao risco de superaquecimento e ao cenário de alta inflação.


O câmbio, em especial, apresenta duplo desafio ao governo chinês, uma vez que não somente pode gerar distorções em sua própria economia, como também vai criar ainda mais tensões com seus parceiros comerciais, sobretudo, Estados Unidos e União Européia. A apreciação de moedas de países em desenvolvimento desde março de 2009 em relação ao dólar norte-americano tornou o renminbi uma das moedas mais fracas entre estas economias e acentuou pressão para seu fortalecimento. Entre os argumentos utilizados por Pequim para defender manutenção do câmbio, destacam-se o fraco desempenho do setor exportador, que é responsável por significativa parcela de empregos no país – ainda que vendas externas tenham apresentado sinais de recuperação no terceiro trimestre de 2009 – e também deflação do IPC ao longo de 2009, uma vez que apreciação do renminbi exacerbaria redução de preços.



As instituições mais respeitadas que analisam China divergem quanto à possibilidade e ao ritmo de valorização cambial frente ao dólar e, até mesmo, estão corrigindo as estimativas publicadas nos últimos dois meses. A consultoria Dragonomics previa manutenção da taxa cambial até o final de 2010, no entanto, em razão de reavaliação da estimativa de inflação para o ano, passou a não descartar a valorização da moeda ainda no segundo trimestre. Da mesma forma, o Citigroup acredita que existe grande probabilidade de apreciação do renminbi no início do ano e que esta deverá ser de aproximadamente 4% até o final de 2010. Já o banco Morgan Stanley acredita em manutenção da taxa até o final do primeiro semestre e que deverá ocorrer suave e gradual valorização ao longo do restante do ano.


Nossa expectativa é de manutenção da política cambial até meados de 2010 e, caso as exportações surpreendam e venham a registrar recuperação satisfatória no primeiro semestre, é provável que haja valorização lenta e gradual. Porém, enfrentamos o seguinte dilema em relação a essa análise: apesar de não acreditarmos em recuperação acelerada das exportações chinesas, uma vez que a demanda mundial não irá se recuperar rapidamente, vislumbramos a possibilidade de alta inflacionária, que poderá pressionar Pequim a valorizar a moeda, uma vez que aprendeu no passado que medidas como congelamento de preços, além de não serem eficazes, trazem graves riscos para a economia. Dessa forma, índice de preços e exportações serão o foco central das previsões sobre o câmbio.

 

A política monetária deverá sofrer alteração no ano, mas não da forma radical como alguns acreditam. A divulgação dos dados de crescimento dos dois últimos trimestres de 2009 (9,1% e 10,7%, respectivamente) e alto volume de empréstimos já concedidos em janeiro de 2010, fizeram com que o governo chinês adotasse medidas que já impactam na circulação de moeda e crédito. No entanto, descartamos a probabilidade de severo arrocho monetário em 2010.


No âmbito das relações internacionais, acreditamos que a China continuará a dar sinais de que está se tornando uma potência que participa ativamente do debate e das soluções para problemas de ordem mundial. No entanto, também não temos dúvida de que as ações de Pequim continuarão a ser ambíguas sempre que interesses econômicos estiverem em jogo. De qualquer forma, as demais potências continuarão a exigir da China maior compromisso e atuação. Descartamos, porém, que Pequim aceite a criação, ainda que informal, do sugerido G2, preferindo manter seu discurso de identificação como nação em desenvolvimento.


Para os Estados Unidos, a importância do diálogo constante e de alto nível com a China continuará a ser uma das prioridades do governo de Barack Obama. Apesar da visita de Obama à China no final de 2009 ter sido marcada por tom menos crítico e reforçado discurso de parceria e de diálogo conjunto, o processo de recuperação das exportações do país asiático e insistência chinesa em manter política cambial imutável, levarão o governo de Obama a aumentar pressão pela valorização do renminbi. Da mesma forma, setores da economia norte-americana exigirão ações mais eficazes e solicitarão adoção de medidas protecionistas contra a China. Após aplicação de inúmeras sobretaxas sobre produtos chineses em 2009, os Estados Unidos iniciaram 2010 seguindo o mesmo caminho e impuseram tarifas que variam entre 43% e 289% sobre importações de mais de US$ 300 milhões em produtos siderúrgicos da China e alíquotas entre 10% e 16% sobre importações de US$ 2,74 bilhões em tubos para aplicações petrolíferas, entre outros produtos siderúrgicos, produzidos pelo país asiático. A União Européia, grande afetada pela crise, também deverá manter política, assumida em 2009, de recorrer com frequência a mecanismos de defesa comercial. Os chineses, por sua vez, optaram por retribuir na mesma moeda e já em janeiro aplicaram tarifa provisória sobre determinados produtos de aço russos e norte-americanos, sob alegação de prática ilegal de comércio. Dessa forma, apesar dos apelos de líderes mundiais em foros internacionais por menos barreiras ao comércio o ano promete ser marcado por forte protecionismo de todos os lados.


Outro desafio em 2010, este de cunho político, será administrar problemas relacionados ao meio ambiente, tanto no âmbito interno quanto externo. Apesar de inúmeros discursos do presidente Hu Jintao ressaltando o engajamento chinês para combater degradação ambiental em 2007 e 2008, com a explosão da crise e o lançamento do Pacote de Estímulos, Pequim precisou relaxar restrições ambientais a fim de assegurar crescimento econômico. Em setembro durante reunião de cúpula prévia à Conferência de Copenhagen para mudanças climáticas das Nações Unidas, Hu prometeu reduzir consideravelmente emissão de gás carbônico proporcional ao produto interno bruto (PIB) do país. Além da redução da quantidade de energia utilizada na indústria também foi ressaltada adição de fontes renováveis à geração de energia e expansão do programa de reflorestamento no país. Tais promessas elevaram expectativas quanto ao sucesso da COP-15 em dezembro, reunião que buscava estabelecer metas de redução de emissão de gases pelos países mais poluidores do mundo e pretendia substituir o Protocolo de Kyoto. Contudo, houve enorme frustração quanto ao resultado do encontro, que produziu apenas um documento evasivo sem caráter vinculante; e a China saiu como umas maiores culpadas pelo fracasso da reunião.


Assim, Pequim tem pela frente dois grandes desafios relacionados ao meio ambiente. O primeiro é interno: recuperar recursos naturais esgotados e preservar os escassos a fim não somente de proteger a fauna e flora chinesa, mas também de garantir a renda de milhões de cidadãos vivem da agricultura de pequeno porte. O segundo é externo: suportar pressão internacional por redução ainda maior de emissão de gases poluentes, em especial, após a COP-15 que não foi positiva para imagem chinesa no cenário internacional.


Apesar de possíveis tensões comerciais e outras relacionadas ao meio ambiente com Estados Unidos e União Europeia, com demais países a China deverá estreitar parcerias e se tornar cada vez mais importante para estas economias. Em janeiro de 2010, entrou em vigor o Acordo de Livre Comércio entre os dez países da ASEAN e a China. Com quase US$ 4,5 trilhões em volume de comércio, esta será a terceira maior Área de Livre Comércio do mundo em termos de valor. De acordo com o Acordo estabelecido, a tarifa média sobre produtos dos países da ASEAN para a China foi reduzida de 9,8% para 0,1% e o contrário (tarifa dos seis membros originais da ASEAN para produtos chineses) caiu de 12,8% para 0,6%. Até 2015 os novos membros, Vietnã, Laos, Camboja e Mianmar, também deverão adotar política de tarifa zero para os 90% de produtos chineses. Ainda no continente asiático, outro país que tem promovido aproximação cada vez maior com a China é o Japão. Um dos últimos exemplos foram trocas de visitas entre membros de alto nível de ambos os países, incluindo ida de Xi Jinping – tido como provável sucessor de Hu Jintao - a Tóquio em novembro e dezembro de 2009.

 

As perspectivas para relacionamento com Oceania e África também são positivas, sobretudo em razão de aumento acelerado da presença chinesa em ambos os continentes, com expressiva expansão de investimentos e trocas comerciais. Com a América Latina, as previsões variam de acordo com o país. Com o Peru, por exemplo, Acordo de Livre Comércio previsto para entrar em vigor em 2010 deverá incrementar consideravelmente o intercâmbio comercial entre a China e o país andino, bem como intensificar fluxo de investimentos. Somente no primeiro ano, está previsto adicional de US$ 800 milhões no comércio que em 2008 atingiu US$ 7,5 bilhões.


Relacionamento Brasil-China


Com a perspectiva positiva para a economia brasileira, não há dúvidas de que o comércio bilateral voltará a crescer acentuadamente, após ligeira redução ocorrida em 2009 – de 0,9%. No entanto, acreditamos que o foco para 2010 será investimentos. Nos últimos três meses importantes negociações de aquisições chinesas no Brasil foram anunciadas, em especial, a negociação de compra de ações da empresa mineradora MMX pelo Grupo Wisco e a incorporação da Sul Americana de Metais, controlada pela Votorantin Novos Negócios, por um grupo chinês que controla a Honbridge Holdings. Confiamos que o volume de investimentos de empresas chinesas no Brasil está entrando em uma trajetória de crescimento acentuado, focado em setores estratégicos, como mineração, petróleo e infraestrutura, mas também voltado para aproveitar o mercado consumidor brasileiro. Esse cenário é bastante benéfico para as relações sinobrasileiras e deverá causar impacto significativo na aproximação política entre os dois países. Como bem alertou o economista Ilan Goldfajn, durante a 3ª Conferência Internacional do Conselho Empresarial Brasil-China realizada em junho de 2009, somente a intensificação de investimentos mútuos permitirá maior diversificação da pauta comercial sino-brasileira.


Quanto ao comércio, as exportações brasileiras continuarão crescendo significativamente e, sem dúvida, apresentarão ritmo ainda superior ao registrado em 2009, principalmente em razão do aumento do preço das commodities no mercado internacional. O volume de importações brasileiras da China, que é concentrado em bens de capital e matéria prima para indústria, voltará a crescer, acompanhando a recuperação da produção industrial brasileira estimada para esse ano. Em 2009, em razão dos fortes impactos da crise internacional no setor industrial brasileiro, máquinas e equipamentos registraram queda de cerca de 16%, enquanto as compras totais decresceram 20,6%. Dessa forma, é muito provável que o saldo comercial sofra significativa mudança, lembrando que o Brasil registrou superávit recorde de US$ 4,3 bilhões. Ainda é muito cedo para estimar qualquer resultado numérico, uma vez que fatores como precificação de minério de ferro, soja e demais commodities, assim como ritmo de recuperação da indústria brasileira, precisarão ser acompanhados para, então, ser possível estimar se voltaremos a registrar déficit ou se simplesmente teremos redução significativa do superávit com o país asiático.


No âmbito político, é aguardada a visita do importante vice-primeiro-ministro da China, Wang Qishan – responsável pela pasta econômica e financeira do país – que teve sua missão adiada em 2009 por dificuldades de conciliação de agendas dos governos. Wang vem ao Brasil para presidir a reunião plenária da Comissão Sino- Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (COSBAN), que deveria ter sido realizada em 2008. A comissão oficial do governo chinês não deverá, no entanto, ter a mesma relevância da que havia sido programada para visitar o Brasil em novembro de 2009. O governo chinês afirmou que a delegação organizada na época era mais importante do que a enviada a Washington poucas semanas antes. Apesar da importância do representante chinês, que foi designado para presidir o relevante mecanismo de diálogo econômico e estratégico com os Estados Unidos, não há grandes expectativas quanto aos resultados práticos da reunião. As subcomissões criadas para tratar de questões específicas da relação bilateral – inclusive abertura de mercados e remoção de barreiras comerciais – e que deveriam se reunir periodicamente no intervalo de tempo entre as plenárias bienais, pouco ou nunca se reuniram.


Dessa forma, sem uma agenda previamente negociada, a COSBAN provavelmente servirá como mais um encontro amistoso de caráter simbólico entre os países. A única exceção poderá ser a exigência chinesa da regulamentação do status de economia de mercado concedido pelo Brasil, mas nunca implementado de fato. Não acreditamos em sua implementação ainda nesse ano, mas o Brasil deverá sinalizar que pretende avançar nessa questão. Há, ainda, rumores de que Hu Jintao viria ao Brasil, retribuindo a visita realizada em maio do ano passado pelo presidente Lula. Todavia, 2010 é um ano marcado pela disputa presidencial que deverá inviabilizar a agenda do presidente do Brasil.


Por fim, a feira mundial “World Expo Shanghai 2010”, que será realizada entre maio e outubro, contará com um pavilhão brasileiro e terá como ápice para o Brasil o dia do país na China, em 3 de junho. A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, coordenadora do projeto, espera a presença do presidente Lula e está organizando uma agenda de eventos setoriais e regionais.


No âmbito multilateral, por sua vez, ambos os países devem continuar a agir conjuntamente para reforçar a importância dos países em desenvolvimento no processo decisório internacional e tentar avançar a agenda de reformas das instituições de governança global. No entanto, essa atuação conjunta não deverá compreender determinados temas controversos, como a reforma do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Da mesma forma, apesar de seus interesses comuns no G20 Comercial, Brasil e China têm demandas e objetivos específicos diferentes nas negociações da Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio.


Mais uma vez, esse editorial termina com uma visão positiva quanto ao avanço da economia chinesa, mas reforça a necessidade de moderação no otimismo quanto às perspectivas de manutenção das altíssimas taxas de crescimento registradas no período pré-crise. Igualmente, temos expectativas positivas para o incremento das relações econômico-comerciais sino-brasileiras, principalmente em razão da expansão do fluxo de investimentos, porém acreditamos que ainda há muito a ser feito para que as relações bilaterais alcancem seu real potencial.


______________
¹ O resultado do PIB do Japão para o ano de 2009 ainda não foi divulgado, mas utilizando como base a projeção de decréscimo de 5,4%, o mesmo ainda seria superior ao PIB chinês. Caso a contração da economia japonesa seja ainda maior, a China poderá ter assumido a posição de segunda maior economia já em 2009.



 
Quem faz: